Quem sou eu

Minha foto
Um homem que buscava sexo decompromissado com garotas de programa e acabou apaixonando-se por uma delas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Parte 6 - Vingança

Como eu disse, por vezes Elise desaparecia. Não atendia o telefone, não respondia mensagens. Não cumpria o combinado. A paciência de Humberto também tem limite.

Na noite em que discutiram em razão da insegurança dela quanto ao futuro, Elise saiu do apartamento e ele saiu atrás. Pararam na porta de saída para a rua; ele insistindo que não a deixaria. Ela queria ir embora. Entrou no taxi e, antes de partir, disse diante das juras dele:

_ Você disse que não é sempre que cumpre sua palavra.

Humberto desolou-se. Ela estava entendendo tudo errado. Não conhecia o motivo dele ter dito aquilo.

Algumas semanas antes, numa das vezes em que Elise o deixou esperando sem dar notícias, Humberto cansou de esperar e decidiu sair sozinho em sua moto. Tinha comprado uma moto para não ficar dependendo de taxi para sair com ela.

Sair sozinho era parte de seu ritual de caça. Estava disposto a sair com outra mulher. Outra garota de programa. Seria sua vingança. Desde que seu caso com Elise começou a ganhar mais seriedade ele prometeu a ela não sair com outra mulher. Estava a ponto de desfazer seu juramento. Iria, afinal, descumprir sua palavra.

Foi para uma outra boate da cidade, onde o movimento começava mais cedo. Levou o telefone esperando que Elise ligasse a tempo dele desistir do que pretendia fazer. Se ela tivesse ligado ele não teria executado a vingança. Elise não ligou.

Parou a moto em frente a entrada. Conversou com o segurança sobre deixar a moto ali. "É tranquilo". Entrou na boate e sentou-se no balcão próximo à porta de entrada. Havia pouco movimento e poucas mulheres. Nenhuma o atraiu. Pediu uma cerveja e ficou esperando o que ia dar. Enquanto bebia entrou uma morena, invariavelmente uma morena, que ele já hava visto ali antes de conhecer Elise. Deve ter um metro e sessenta, coxas grossas, pernas bonitas, cabelos longos, peitos atraentes, não muito grandes. Ela olhou para ele.

Humberto sabe olhar para uma mulher. Olha com profundidade. Demonstra interesse. Seus olhos dizem sem vacilar que ele quer aquela fêmea. Começou a olhar para a morena. Havia escolhido com quem executaria sua vingança. A morena se aproximou percebendo o interesse. Afinal, chegara para trabalhar e ganhar dinheiro. Um cara a olhava com interesse. Parecia legal. Não era de se jogar fora.

Apresentaram-se. Ele deu nome falso, inventou que era biólogo e conversaram alguns minutos. Pela primeira vez ele não foi direto ao assunto. Queria ter certeza de que havia escolhido a pessoa certa. Não queria perder a oportunidade. Pôs sua mão no braço esquerdo da morena e sentiu sua pele. Gostou. Aproximou-se do pescoço dela e então perguntou do programa. Estava decidido.

Estavam combinando como ir para o motel, se de taxi ou de moto, quando entra uma conhecida amiga de Elise. Humberto a conhecia por fotos, mas ela não o conhecia. A amiga emprestou o capacete e eles foram de moto. Por ironia a amiga de Elise ajudou inconscientemente na vingança. Daí aconteceu. Transaram. Humberto gostou da transa. Sentiu-se vingado. Sentiu que não havia sido passado para trás. Pagou o programa, levou a menina de volta e foi para casa.

Ligou para Elise, mas ela não atendeu. Lá pelas quatro ou cinco da manhã Elise liga meio arrependida, meio chateada, e pergunta se ele queria que ela fosse à sua casa. Claro que ele queria. Era tudo o que queria. Saiu em sua moto para busca-la. Elise estava em casa. Havia bebido e sentia-se mal por te-lo feito esperar. Mas não sabia o que ele havia feito a poucas horas. Estava faminta. Ele saiu para buscar o que comer. Ficaram juntos o resto da noite e da manhã.

O destino os unia novamente. Mas Humbeto tinha agora um segredo e não estava disposto a esconde-lo. Começou a dizer coisas daquele tipo: "não é sempre que cumpro minha palavra". Estava se referindo ao que havia feito. Humberto esconde fatos, mas não gosta de mentir sobre eles. Prefere tergiversar e calar, mas não manuseia bem a mentira. É fácil demais perceber quando mente. E quando diz a verdade parece estar mentindo.

Não podia dizer logo a Elise porque um acontecimento o impediu. Ela sofreu uma agressão de um cara com quem havia saído para um programa. Ficou muito mal, arrasada por alguns dias. Não era o momento de contar. Ele esperaria até o dia em que foi necessário revelar o motivo que o levou a dizer que nem sempre cumpria sua palavra. Esse dia foi quando Elise repetiu as palavras dele.

Foi para a casa dela. Antes mandou uma mensagem pelo celular dizendo que tinha algo a lhe revelar, algo que estava escondendo. Elise ligou e queria saber por telefone. Ele jamais faria isso. Era algo a se dizer em pessoa, olhando nos olhos e explicando os motivos, sentindo as reações e ponderando o que dizer em resposta. Precisava falar pessoalmente.

Chegou à casa dela. Pediu que ela o ouvisse com calma e prestasse atenção em suas justificativas. Começou a falar.

Parte 5 - Presente de aniversário

Depois de conhecer Elise, uns dois meses depois, Humberto faria aniversário. Chegaria aos seus trinta e poucos anos. Não imaginava o presente que ela preparava.

Na verdade não se pode dizer que Elise prepara alguma coisa. Tudo com ela funciona na espontaneidade. Tudo acontece no momento. Ela apenas planeja vagamente alguma coisa: sem data, sem hora, sem duração, sem recursos. Tem apenas uma vaga idéia do quê pretende fazer. Elise promete coisas para ontem. Na hora do jantar promete que vai almoçar no mesmo dia. Às 5 da manhã promete que vai passar a noite junto. Parece não ter noção do tempo ou do espaço. Aprendeu a viver por si só. Acho que é isso.

Mas no dia do aniversário de Humberto houve uma excessão. E uma excessão dessa deve ser notada porque foge em absoluto da regra de seu comportamento. Humberto aprendeu a não criar expectativas por ela. Aprendeu não. É impossível não criar expectativas, mas aprendeu que não deve esperar, porque ela sempre o surpreende.

Naquele dia ele procurou não esperar muito, pois já conhecia o gênio de Elise. Mas ela foi pontual ao encontro que marcaram. Estava linda. Preparou-se exclusivamente para ele e estava linda, deslumbrante, apaixonante. São esses momentos que destroem todas as chances e todas as idéias de um rompimento. Humberto não admite perder essa mulher impetuosa e imprevisível, que o encanta com seus atos inesperados. Ela o fere de morte num dia, e no outro o faz desfalecer de amor e prazer.

Elise pediu para levar a Sheila, sua amiga, para comemorarem todos juntos. Humberto gostava de Sheila e não fez objeção. Foram os três a um restaurante. Comeram e beberam vinho. Elise teve uma idéia. Queria levar Hmberto para a boate e contratar uma memina para fazer strip em sua mesa. Pretendia saber o quê sentiria vendo-o olhar para outra mulher. Idéias que o álcool ajuda a sairem da cabeça e irem para a língua, e daí para o ouvido de outra pessoa.

Humberto gostou da idéia. Agradava-lhe provocar ciúmes em Elise. Sentia-se mais amado por ela. Foram à boate. Beberam mais um pouco e Elise escolheu a dançarina. Ele não se empolgou com a escolhida e ela não teve ciúmes. Pediu para escolher outra. Escolheu uma menina pequena que estava por alí, de saia curta, mostrando as polpas de sua bunda. Era loira, uma loirinha espevitada. Não é seu tipo preferido, mas parecia safada. Sheila o confirmou: "essa é piriguete".

A safadeza é um atributo que sempre atraiu Humberto para a cama com uma prostituta. Mas Elise não é do tipo safada. Elise é meiga, reservada, misteriosa. Por isso se apaixonou por ela. As safadas devem estar circunscritas à carne, para satisfazer o esporro, para gozar na cara, mas não para o coração.

A loirinha veio e começou a despir-se. Elise levantou-se e saiu de perto. Foi tomar tequila. Estava tomada de ciúme. A loira arreganhava sua buceta na frente de Humberto. Fazia gestos, cara e bocas. Era safada mesmo. Do tipo que o homem quer pegar, comer e arrotar. É para traçar e desossar, mas não inspira uma paixão avassaladora. Não desperta o amor. Não marca o coração. Não finca a seta de Cupido. Não estoca o punhal da paixão. Não arrebata.

Elise voltou enciumada e transtornada. Humberto a abraçou e a beijou, declarou-lhe seu amor com a cabeça cheia de álcool e os olhos cheios da visão de outras mulheres. Estava cansado de putas e de bucetas e corpos nús e de putarias. Queria apenas o cheiro e a pele macia e morena de Elise. Queria apenas seus lábios carnudos e macios, que o faziam desfalecer de amor com um beijo.

_ Porque você ficou com ciúme dessa e daquela morena não?
_ Porque a outra fui eu quem escolhi e essa foi você quem escolheu.

Depois disso Elise ainda pediu que Sheila fizesse também um strip para Humberto. Incomodava-a o fato de ter contratado a dinheiro duas meninas enquanto sua amiga estava ali sem ganhar nada. Foi apenas para poder ter uma oportunidade de dar-lhe uns trocos. Pediu a Humberto que desse um tapa na bunda de Sheila. Não via problema. "Ela é nossa amiga", dizia.

Humberto recusou-se. Não gosta de cruzar certos limites.

Sheila é morena com aplique de cabelos loiros. Baixa, dona de um corpão farto, bunda grande e seios siliconados. Agrada a muitos homens mas não faz o tipo de Humberto. E mesmo que fizesse não haveria a mínima chance de despertar nele qualquer interesse. Era sagrado respeitar a amiga de sua amada. Nem por vingança teria coragem de se aproximar de Sheila. A própria Sheila também sempre demonstrou grande respeito pela relação dos dois. É um código de honra inquebrável.

Mas a noite ainda não terminara. O casal foi para o apartamento de Humberto, lugar comum para os dois, onde já haviam vivido momentos diversos. Ali já tinham transado, visto TV juntos, comido, trocado carícias. Também já haviam discutido ali algumas vezes. Boa parte de seu amor foi forjado ali naquele apartamento de poucos móveis.

Certa noite, naquele quarto, Humberto precisou atender o telefone. Era sua esposa. Se não a atendesse poderia levantar suspeitas. Elise enciumou-se e acendeu-se nela a idéia de que Humberto a deixaria. Emburrou-se e o maltratou. As nuvens negras pairavam sobre eles. Ele, irritado com a situação, respondeu que talvez fosse melhor terminar tudo.

_ É isso que você quer não é Humberto?
_ Não! É você quem quer. Assuma que quer terminar Elise.
_ Então tá. Foi bom te conhecer. Obrigada por tudo. Não vou mais ter procurar.

Elise dizia com uma facilidade que faria acreditar que ela não sofreria com uma separação, mas era fachada. Era de raiva que falava assim. Não queria perde-lo, mas a força da circunstância a fazia acreditar que Humberto a deixaria quando sua família viesse morar com ele.

_ Não! Não vou te deixar Elise. Eu te amo. Não quero te deixar.

Mas Elise havia guardado as palavras que Humberto dissera poucas horas antes da discussão: "Não é sempre que cumpro minha palavra". Elise apenas não sabia o motivo porque ele dizia isso.

Mas voltemos à noite do aniversário.

Quando chegaram ao apartamento Elise começou a falar de si. Falou e desceu às profundezas de seus sentimentos. Falou de seu passado e do abuso que sofrera do padastro quando criança. Falou do rancor pela inércia de sua mãe, que não protegeu a filha do criminoso. Hoje o traste é morto. Humberto gostaria de mata-lo novamente.

Depois se abraçaram, ficaram calados por um tempo ouvindo a respiração um do outro. Depois de aliviada Elise quis "fazer amor", como ela diz. Foi uma noite que não se deixará jamais ser esquecida. Como um homem pode esquecer-se do que fez com uma mulher como o que fizeram naquela noite? Como um homem pode simplesmente admitir que essa relação deve acabar? Como ignorar a profundidade e a força dos acontecimentos?

Humberto não é homem que se esquece. É um homem calado, de poucas falas, mas de coração profundo. Suas vivências amorosas estão todas ali, latentes, inesquecíveis. Jamais esqueceu qualquer das mulheres que amou em sua vida. Foram poucas, mas foram a fundo, até o osso da alma.

Depois, no meio da noite, Elise acorda perguntando:

_ O que eu te disse da minha vida?
_ Muitas coisas.
_ Não. Eu não falei nada. Nunca falo pra ninguém. Eu nunca falei pra ninguém.
_ Pra mim você falou.
_ Não falei. Eu não falo pra ninguém.
_ Falou amor. Você confia em mim. Eu te amo.

Na manhã seguinte Humberto precisava trabalhar. Fora uma das melhores noites de sua vida.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Parte 4 - Miseráveis

Toda dádiva tem seu preço. Toda bênção tem sua maldição. Toda felicidade traz sua dor e o contrário também é verdadeiro.

Elise mexeu com o coração de Humberto. Não se pode dizer que ela é a mulher perfeita. A perfeição é fria, inerte, gélida. Causa enjôo e tédio. Elise é misteriosa. Acostumou-se desde cedo a se virar na vida. Aprendeu a depender de si mesma. Aprendeu a ser sozinha. É escorregadia e indomável.

Outro homem teria desistido. Mas talvez essa instabilidade, esse comportamento imprevisível, essa selvageria e essa incógnita sejam exatamente seu fascínio. Fascina e fere. Quando Humberto espera carinho ela vem com socos e pontapés. Quando sai armado ela o desmonta com seu olhar de menina, pondo a mão em sua virilha enquanto ele dirige.

Ele se amortece com o beijo dela. Sente o corpo ficar mais leve, mais rarefeito, mais quente, o ventre frio. É como uma droga, um analgésico, um anestésico, uma substância química. E de fato é. São as interações químicas dentro do cérebro. A paixão é viciante.

Tudo acontece contra suas expectativas. Não adianta planejar nada com Elise. Não adianta criar qualquer expectativa. Ela sempre surpreende. Ela foge de qualquer regra, de qualquer padrão. Humberto é um tipo de homem que não sabe o que fazer diante disso. Não sabe lidar com o imprevisível. Quando ele decide terminar tudo, ela vem e pulveriza seus convicções com um beijo.

Como poderia terminar tudo? Como poderia suportar não ve-la mais? Não ficaria sem seu olhar de menina e sem seus cabelos lisos sobre os olhos. Lembra-se de ve-la se arrumando diante do espelho, ignorando seu olhar apaixonado sobre ela e perguntando se estava bonita. Se arrumava para ir trabalhar, para agradar outros homens. E perguntava se ele gostava.

Maldição.

Ela não perguntava para provoca-lo nem para causar ciúmes, mas porque é mulher e queria ouvir o elogio de seu homem. Mas ela esquecia-se da maldição de Humberto. Ela era garota de programa. Toda sua beleza seria a propaganda de seus serviços.

Há homens que curtem ver sua mulher sendo desejada e até possuída por outros homens. São cornos voluntários e são felizes em se-lo, mas Hmberto não é assim. Tem ciúmes de Elise a ponto de pensar em deixa-la por isso, por não suportar a idéia de saber que outros homens a possuem quase que diariamente. E se ela gostar de algum deles? E se sentir prazer com algum? E se curtir o momento como curtiu com ele da primeira vez que se encontraram? Não se fica livre de uma maldição com facilidade.

O que fazer? Ele a conheceu assim e não tem como sustenta-la para que ela saia da profissão. Por outro lado, é casado e não pode assumi-la. Como exigir que ela pare de fazer programa por sua causa se é isso o que ela faz há anos para ganhar a vida? Se fosse solteiro as coisas seriam diferentes. Mas é casado. Elise não tem esperança que Humberto abandone sua família para viver com ela. É sua parte da maldição.

Ela também tem que suportar saber que ele dorme todos os dias com sua mulher. E se eles estiverem se amando? E se ele a acaricia e se esquece de Elise? A qualquer minuto ele pode repensar a situação e optar por ficar com sua mulher somente. Ela seria descartada. Passaria como passa uma noite e passa um dia. Ficaria para trás sozinha com seus clientes novamente. Ninguém se livra de uma maldição com facilidade.

Um casal miserável.

Mas toda maldição tem alguma vantagem. Estar juntos é para ambos um momento de prazer e de interações químicas cerebrais que alguns chamam de amor ou de paixão. São momentos tão raros quanto desejados. Tão belos quanto improváveis. Tão reais quanto ilusórios. Deus estaria ali com eles? Com esse casal maldito? É claro que não. Só o diabo poderia abençoar uma relação dessas. Um amor abençoado pelo Demônio, cultivado por Satanás.

O mundo pertence a Satanás. Ele dá e tira de quem quer e quando quer. Deus não tem mais paciência com o homem. Cansou da raça. Satanás é quem se diverte com nossas misérias. Adora nos ver batendo a cabeça contra o muro e perdidos feito baratas tontas. É um fanfarrão. Louvado seja o Diabo. Humberto queria procurar-lo, pedir uma ajuda, propor um acordo, vender sua alma. Mas sua alma tem pouco valor. O diabo não se interessou.

Talvez Deus. Dizem que ele ajuda de graça.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Parte 3 - Labirinto.

Numa noite, mais um encontro marcado entre os dois. A situação ainda estava indefinida. Elise é instável e estava confusa, muito confusa. Na hora marcada ela não apareceu, nem depois. Humberto esperou por horas. Na última vez que ela atendeu o telefone sugeriu que ele pedisse uma pizza para os dois, pois ela estava a caminho. Estava se arrumando. Ele pediu e a pizza chegou, mas ela não atendia mais o celular.

Humberto sofria, angustiava-se, não entendia o que se passava na cabeça daquela mulher. Saiu com amigos para beber. Estava disposto a sair com outra mulher por vingança. Mas não era de seu feitio chavecar mulheres na noite. Depois de beber um pouco resolveu ir aonde acreditava que encontraria Elise. Foi para a boate onde ela trabalhava. Não a encontrou. Mas encontrou Sheila, a amiga de Elise.

_ O que você está fazendo aqui?
_ Vou sair com outra porque a Elise não me atende.

Em poucos minutos e telefone toca. Se celular não vibrasse seria impossível ouvir naquele barulho da boate. Era Elise. Ele atendeu mas não dava para conversar. Saiu da boate.

_ O que você está fazendo aí?
_ Vim te procurar. Você sumiu.
_ Você saiu com outra?
_ Ainda não.

Humberto começou a despejar sua raiva. Como ela podia fazer isso com ele? Elise não sabe ouvir reclamações. Ofereceu-se para ir encontra-lo. Era o que ele mais queria, mas estava ofendido e disse não. Depois de alguns minutos ligou mas ela não atendia. Insistiu várias vezes até que ela atendeu:

_ Pára de me ligar.

Falou e desligou. Ele insistiu e ela atendeu:

_ Não me liga mais não.

Desligou de novo e ele insistiu. Estava louco de paixão por aquela mulher. Não tinha mais vergonha na cara. Não tinha mais brio nem orgulho. Estava rastejando aos pés de quem lhe maltratava sem motivo:

_ Pára de me ligar. Não está vendo que está me incomodando? Você é um tormento na minha vida. Estou com meu namorado aqui e você está atrapalhando. Você é apenas um cliente.

O mundo caiu. O chão desabou. Humberto sentiu-se enganado, pisado, feito de idiota. Havia dedicado sentimentos, havia arriscado seu casamento, havia ajudado financeiramente. E ela o enganava. Tinha namorado! Ele era "apenas um cliente"! Tentou dormir e ficou pensando. Sentiu um alívio, afinal. Agora estava tudo terminado. Podia voltar à sua vida cotidiana e salvar seu casamento. Podia agora continuar saindo com outras putas. Puta era tudo igual mesmo. Só queriam seu dinheiro.

Pensou melhor e decidiu não sair mais com putas. Só querem dinheiro. Tentou dar carinho, atenção e afeto. Tentou trata-la como mulher, como pessoa, não como objeto de prazer. Mas elas não querem amor, Querem dinheiro apenas. Pernas abertas e língua habilidosa. Perfumes e lingeries. Gemidos falsos. Amor de plástico. Tudo por dinheiro.

No dia seguinte procurou se desfazer de tudo que remetia a ela. Excluiu-a do orkut e do msn. Pois é. Estava no orkut dele! Todo mundo podia ver, inclusive sua mulher! A que ponto chega um homem louco de paixão. Havia criado um blog para ela com fotos que tirou em sua casa. Excluiu o blog. Catou os fios de cabelo que ela deixara em seu banheiro e em sua cama.

Um dia ou dois antes disso tinham transado sem camisinha pela primeira vez. Humberto sentiu pela primeira vez a carne da vulva de Elise. Era significativo para ele. O que para alguns pode significar risco de uma doença venérea para Humberto era a consagração de sua paixão. Sentir na carne de seu pau a carne da buceta dela. O calor e os fluídos. O cheiro da pele, sem a maldita borracha da camisinha.

Não chegou a gozar. Ainda tinha um resto de juízo, mas sabia da possibilidade, embora pequena, de engravida-la apenas com a lubrificação peniana. Disse isso para Elise e ela ficou preocupada. Tomou a pílula do dia seguinte.

Humberto não fazia a mínima idéia de como isso mexeu com a alma de Elise. Depois que ele conheceu alguns fatos de seu passado pode entender o que significava para ela uma gravidez. Coisa de quem tem alguma idéia das teorias de psicanálise. Elise tinha pavor de engravidar. Tinha uma insegurança muito grande, muito medo de ser abandonada.

O que Humberto faria se ela ficasse grávida? Com certeza iria abandona-la e desaparecer de volta para o sul. Ele a deixaria sozinha com um filho no ventre. Isto impediu-a de comer com ele aquela pizza. Medo. Elise não tinha namorado. Havia mentido.

No dia seguinte, depois que Humberto se desfez das coisas que a lembravam e depois de estar decidido a mudar de vida para sempre, depois do baque, do tombo, da porrada, Elise ligou por volta das 4 da tarde. Ele, como não poderia deixar de ser, atendeu. Como não atenderia se a amava? Estava perdidamente apaixonado. Estava na verdade aguardando ansiosamente aquela ligação.

_ Oi.
_ Pra quê você me ligou?
_ Pra gente conversar melhor.
_ Mas e o seu namorado?
_ Eu não tenho namorado. Estava com raiva porque você saiu com outra menina.
_ Eu não saí com ninguém.
_ Uma menina me disse que saiu com você. Ela até te descreveu.
_ Mentira. Eu não saí com ninguém. É mentira. Manda ela dizer na minha cara.
_ Mas ela disse que era você, até descreveu.
_ Porra Elise! Fiquei a noite toda atrás de você! Porra! Eu não saí com ninguém!
_ Verdade?
_ Claro que é verdade! Porque eu mentiria? Eu queria sair mesmo mas não saí. Não tive coragem. Eu queria ter saído porque estava com muita raiva de você, mas não saí.
_ Então vou colocar vocês dois frente a frente.
_ Pode colocar agora se quiser. Eu não saí com ninguém.

Foi um alívio e uma vertigem. Tudo mudava depois disso. Elise explicava o motivo da última conversa que tiveram, que o levou a querer esquece-la, mas não explicava porque o deixou esperando com a pizza. Só depois ele entendeu que era por causa da idéia da gravidez. Elise havia entrado em parafuso com idéia de estar grávida e ser abandonada. Estava confusa demais. Travou.

Humberto tinha um bom salário. Foi advertido que encontraria caçadoras de pensão na região norte. Haveria candidatas a engravidar para garantir uma renda por 18 anos, pelo menos. Elise não era esse tipo. Repudiava a idéia de engravidar de um cliente que mal conhecia e que era casado, com raízes em outra região do país.

A alma de uma mulher é um labirinto. Um mistério profundo.

Parte 2 - Todo homem trai?

Humberto nunca procurou outro relacionamento. Nunca planejou ter uma amante. Sempre saía com garotas de programa para uma transa eventual, sem envolvimento. Depois de casado nunca transou com outra mulher que não fosse garota de programa. Mas seu caso com Elise havia extrapolado os limites da mera satisfação carnal. Tornaram-se amantes.

A maioria dos homens deseja ter mais de uma mulher ao mesmo tempo. Se posível, cada homem transaria com uma mulher diferente a cada dia, senão com mais de uma e ao mesmo tempo. Num único dia, um homem pode desejar dezenas de mulheres. Cada uma que passa em sua frente, a colega de trabalho, a atendente, a que está passando na esquina, a vizinha, a mulher do próximo, a irmã do amigo, a amiga da irmã, a secretária, a médica, a enfermeira, a doméstica, a universitária, a coroa. São infinitas possibilidades.

O desejo masculino é uma coisa que desconhece limites. É coisa animalesca, irracional. É proporcional ao número de espermatozóides contidos em cada porção de esperma. O impulso é de fecundar uma mulher diferente com cada um de seus espermatozóides.

Mas poucos homens têm a disposição de relacionar-se com mais de uma mulher. Na verdade, os homens costumam ser arredios a relacionamentos profundos. Se é difícil com uma mulher, imagine-se com duas.

Há que ter nervos de aço.

As mulheres têm o instinto de segurar o macho que será pai de suas crias, que via assegurar o território, o alimento e a estabilidade. O macho alfa. São possessivas neste sentido. Homens são possessivos no sentido de manter seu harém, seu plantel de fêmeas, sua posse de macho. A possessividade feminina é diferente. Falo de maneira geral. Há inúmeras excessões de ambos os lados, mas este é o aspecto mais cru da natureza humana. É muito semelhante ao que acontece entre os símios nossos parentes e entre muitos mamíferos.

Ser casado com uma mulher, ama-la, e de repente encontrar-se apaixonado por outra, ao mesmo tempo. Há que ter nervos de aço. O homem será apertado contra a parede. Será instado a decidir. E vai enrolar para poder ficar com as duas. Ninguém planeja entrar numa situação dessas, mas poucos conseguem sair depois que entram. Humberto foi aconselhado por amigos: "Sai disso". "Não vai dar certo". "E se ela for na sua casa". "Sua mulher vai te deixar".

Ter uma amante é correr grave risco de perder o relacionamento com a mulher "oficial". Por mais cuidado que se tenha sempre haverá algum rastro, algum indício, alguma pista mal ocultada. Não é difícil para uma mulher descobrir a traição de seu homem. A mentira tem pernas curtas, por mais entusiasmada que seja. Um homem disse que "a verdade é uma força da natureza". Ele tem razão. A verdade se impõe.

E por que arriscar tanto? Perder uma relacionamento de anos, perder a confiança da pessoa amada, perder a família que um dia sonhou-se ter. Jogar tudo pelos ares por causa de um sentimento indefinido por uma terceira pessoa.

Não. Não somos safados. Não somos sem-vergonhas. Não somos bandidos. Somos homens. Alguns são fortes a ponto de lutar contra seus instintos, mas a maioria não pode e nem quer lutar. Entregam-se ao comando do pênis. Pensam, como dizem, com a cabeça de baixo. Somos animais, em suma. Simplesmente não há o que fazer.

Talvez uma forte formação intelectual, ou religiosa, ou filosófica ou alguma outra razão sejam remédios para domar o desejo masculino, mas poucos são os heróis que conseguem manter-se fiéis a uma única mulher por toda a vida. Eu diria que são raríssimos. Quem não chegou a consumar uma traição, é certo que desejou por mais de uma vez. Quem sequer desejou deve ser beatificado. Seria o novo Messias. O super-homem às avessas do ideal de Nietzsche. O buda em pessoa.

Talvez os anos, os cabelos brancos, a cara quebrada, as cabeçadas, a impotência e a sabedoria sejam o remédio, mas aí terá sido tarde. Por quê ninguém ouve conselhos?

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Parte 1 - Humberto e Elise*

Humberto saiu com Elize uma vez, duas vezes, três, quatro, cinco vezes seguidas. Depois precisou viajar. Ficou fora uns 15 dias. Não seria mais o mesmo.

Ele a conheceu numa boate, numa das capitais do norte. Ela era garota de programa. Não é bem como Humberto gostaria de chama-la, mas assim fica entendido o que ela fazia para ganhar dinheiro. O que não se faz por dinheiro, afinal? Haveria alguma forma digna de ganhar dinheiro? Sempre o duvidei. Mas essa é a maldição de Humberto. Apaixonou-se por uma garota de programa.

Elise também foi amaldiçoada. Humberto é casado. Foi para o norte numa oportunidade de trabalho. O que não se faz por dinheiro? Nunca Humberto pensou em morar tão longe. Mas foi pelo dinheiro. Vale a pena se a grana não é pequena (perdão, Pessoa). Porém estava triste, longe de sua família. Não gostou da cidade. Sofreu um choque. Lugar outro, pessoas outras, falas diferentes, calor. Meu Deus, que calor! Humberto foi buscar o que conhecia como consolo. A companhia efêmera de uma puta.

Humberto sabia que bastava pagar para ter uns minutos de mulher, um bocadinho de uma fêmea. Sabia de longa data. Já havia contratado dezenas, talvez mais de uma centena de putas. Ele não sabia mas estava cansado. Cansado de alugar corpos e acessos a bucetas. Deitou-se com tantas mulheres, mas não tinha nenhuma delas.

Sair com uma puta é coisa fácil. Basta ter dinheiro e coragem. Conheci homens que tinham dinheiro mas não a coragem. Diziam querer experimentar, mas faltava a atitude. Qual era seu medo? As putas causam medo em alguns homens. Em outros causam fascinação. Humberto era do segundo tipo.

Quando começou a sair com garotas de programa sentia tremedeiras. É um cara tímido. Não se dá à chavecagem nas baladas. Não leva jeito para isso. Sempre foi direto. Deve ter algum grau de Asperger. Lembro de uma cena de A Beatiful Mind, em que John Nash (personagem de Russell Crowe), chega numa menina numa festa e vai direto ao assunto, sem rodeios, sem chavecos, sem cantadas. É como Humberto se sente. Chega numa prostituta e pergunta duas coisas apenas: o preço e a disponibilidade. Fechado.

Encantou-se com Elise. Não sabe dizer porquê. Sentiu que tirou a sorte grande. Tinha entrado na boate. Sozinho. Era como costumava sair para caçar. Fazia seu próprio caminho:

"Ando só
pois só eu sei
por onde ir
por onde andei".

Viu Elise sentada num canto. Morena linda. Tem um fraco, fraquíssimo, por morenas. Ensaiou, criou coragem. O dinheiro já estava no bolso. Mas é preciso coragem. Recuou. Voltou e ela não estava mais lá. Frustrou-se, mas no meio da frustração ela reaparece e senta no mesmo lugar:

Oi morena, você faz programa? Faço, respondeu docemente. Perguntou o preço e a disponibilidade. Duas perguntas apenas. Em menos de um minuto estavam saindo para o motel. Não se conheciam, mas no caminho sentiu que encontrava alguém diferente. Não estava enganado.

Antes de Elise, alguns anos antes, Humberto conhecera uma garota, Bia. Ela foi a primeira e até então a única com quem ele saiu por várias vezes e por quem começou a sentir um apego.

Bia era, tinha que ser, uma morena, cabelos longos, alta, magra, cheirosa, doce, meiga, linda. Trepava explendidamente. Chupava olhando nos olhos. Gostava do que fazia. Conhecia os clientes. Pedia chocolate. Era apaixonante. Bia desapareceu da casa onde trabalhava e ele perdeu o número dela. Perdeu não. Jogou fora numa de suas crises de arrependimento. Humberto se arrependeu muitas vezes de ter procurado prostitutas, até que o arrependimento se cansou e foi embora. Deixou-o com suas putas.

Arrependeu-se também de ter perdido o telefone da Bia, até que conheceu Elise.

Naquela noite Humberto havia saido com uma menina da avenida. Estava frustrado porque fora horrível. Sentiu que estava acompanhdo por uma boneca de borracha. Elise salvou a noite com sua doçura. Era uma pessoa de verdade. Era linda, atraente, pele macia como nunca havia sentido, cheirosa. E doce. Rosto de menina. Mestiça. Traços de índia.

Mas ele brochou. Não houve penetração. Contra sua vontade seu órgão recusava-se a entrar no corpo dela.

A psiquê humana é difícil de entender, mas tem sua lógica. Desde o primeiro encontro Humberto não queria enxergar Elise como garota de programa. Não conseguia consumar o ato pelo qual iria pagar. Seu corpo o impedia de fazer o que sua alma não queria. Não era a primeira vez que isso acontecia e não seria a última. Humberto era casado e tinha sexo normalmente com sua mulher, mas na rua não era raro brochar.

Mas com Elise o caso parecia mais grave. Não consegui manter uma ereção mínima para penetração. Sentia tesão por ela. Desejava-a, mas na hora seu corpo se recusava. Ele a satisfazia lambendo sua buceta cheirosa até que ela gozasse. Isto se repetiu por dias até o momento em que ele passou a percebe-la como sua amante, não mais como uma garota por quem estava pagando.

Humberto e Elise se envolveram emocionalmente. Encontravam-se com frequência desde o primeiro dia. As sequências de encontros só eram interrompidas quando Humberto viajava uns dias para o sul, para ver sua família.

O que sentia por Elise era um desejo de estar junto, um afeto, um carinho, mas também um desafio de conquistar seu coração maltratado. Depois de uns meses ela revelou-lhe parte de seu passado, uma parte dolorosa que ela não gostava de revelar a ninguém. Estava com um pouco de álcool na cabeça e a língua se soltou. A embriaguez lhe convenceu que Humberto era a pessoa certa a quem dizer sua dor. Ele se sentiu bem em ouvi-la. Sentiu-se íntimo. Também estava com excesso de álcool.

Ele nunca foi de beber. Começou a beber então, longe de casa e por causa de Elise. Nos primeiros meses ela lutava contra a idéia de se envolver com um cliente e não raro dava-lhe um belo cano. Deixava-o esperando. Não atendia o telefone. Arrependia-se de ter marcado encontros. Tinha medo. Ele era casado, afinal. Não tinha como ficar com ela. Como eu disse, é sua maldição.

Ele saía e enchia a cara. Estava apaixonado.

Quando ela sumia ele a ameaçava por mensagens de celular. Dizia que nunca mais a procurava. Ameaçava sair com outra garota. Isto mexia com ela.

Logo que se conheceram ele viajou. Na viagem saiu com uma prostituta. Normal para ele até então. Voltou e foi jantar com Elise. Ela perguntou e ele disse a verdade. Humberto não mentia. Ela chateou-se. Aquele dia foi um marco nessa conturbada relação. Ela não esperava ouvir que ele tinha saído com outra garota de programa. Conheciam-se a menos de um mês.

CONTINUA
* os nomes foram trocados para preservar a identidade dos personagens, mas a história é real.