Toda dádiva tem seu preço. Toda bênção tem sua maldição. Toda felicidade traz sua dor e o contrário também é verdadeiro.
Elise mexeu com o coração de Humberto. Não se pode dizer que ela é a mulher perfeita. A perfeição é fria, inerte, gélida. Causa enjôo e tédio. Elise é misteriosa. Acostumou-se desde cedo a se virar na vida. Aprendeu a depender de si mesma. Aprendeu a ser sozinha. É escorregadia e indomável.
Outro homem teria desistido. Mas talvez essa instabilidade, esse comportamento imprevisível, essa selvageria e essa incógnita sejam exatamente seu fascínio. Fascina e fere. Quando Humberto espera carinho ela vem com socos e pontapés. Quando sai armado ela o desmonta com seu olhar de menina, pondo a mão em sua virilha enquanto ele dirige.
Ele se amortece com o beijo dela. Sente o corpo ficar mais leve, mais rarefeito, mais quente, o ventre frio. É como uma droga, um analgésico, um anestésico, uma substância química. E de fato é. São as interações químicas dentro do cérebro. A paixão é viciante.
Tudo acontece contra suas expectativas. Não adianta planejar nada com Elise. Não adianta criar qualquer expectativa. Ela sempre surpreende. Ela foge de qualquer regra, de qualquer padrão. Humberto é um tipo de homem que não sabe o que fazer diante disso. Não sabe lidar com o imprevisível. Quando ele decide terminar tudo, ela vem e pulveriza seus convicções com um beijo.
Como poderia terminar tudo? Como poderia suportar não ve-la mais? Não ficaria sem seu olhar de menina e sem seus cabelos lisos sobre os olhos. Lembra-se de ve-la se arrumando diante do espelho, ignorando seu olhar apaixonado sobre ela e perguntando se estava bonita. Se arrumava para ir trabalhar, para agradar outros homens. E perguntava se ele gostava.
Maldição.
Ela não perguntava para provoca-lo nem para causar ciúmes, mas porque é mulher e queria ouvir o elogio de seu homem. Mas ela esquecia-se da maldição de Humberto. Ela era garota de programa. Toda sua beleza seria a propaganda de seus serviços.
Há homens que curtem ver sua mulher sendo desejada e até possuída por outros homens. São cornos voluntários e são felizes em se-lo, mas Hmberto não é assim. Tem ciúmes de Elise a ponto de pensar em deixa-la por isso, por não suportar a idéia de saber que outros homens a possuem quase que diariamente. E se ela gostar de algum deles? E se sentir prazer com algum? E se curtir o momento como curtiu com ele da primeira vez que se encontraram? Não se fica livre de uma maldição com facilidade.
O que fazer? Ele a conheceu assim e não tem como sustenta-la para que ela saia da profissão. Por outro lado, é casado e não pode assumi-la. Como exigir que ela pare de fazer programa por sua causa se é isso o que ela faz há anos para ganhar a vida? Se fosse solteiro as coisas seriam diferentes. Mas é casado. Elise não tem esperança que Humberto abandone sua família para viver com ela. É sua parte da maldição.
Ela também tem que suportar saber que ele dorme todos os dias com sua mulher. E se eles estiverem se amando? E se ele a acaricia e se esquece de Elise? A qualquer minuto ele pode repensar a situação e optar por ficar com sua mulher somente. Ela seria descartada. Passaria como passa uma noite e passa um dia. Ficaria para trás sozinha com seus clientes novamente. Ninguém se livra de uma maldição com facilidade.
Um casal miserável.
Mas toda maldição tem alguma vantagem. Estar juntos é para ambos um momento de prazer e de interações químicas cerebrais que alguns chamam de amor ou de paixão. São momentos tão raros quanto desejados. Tão belos quanto improváveis. Tão reais quanto ilusórios. Deus estaria ali com eles? Com esse casal maldito? É claro que não. Só o diabo poderia abençoar uma relação dessas. Um amor abençoado pelo Demônio, cultivado por Satanás.
O mundo pertence a Satanás. Ele dá e tira de quem quer e quando quer. Deus não tem mais paciência com o homem. Cansou da raça. Satanás é quem se diverte com nossas misérias. Adora nos ver batendo a cabeça contra o muro e perdidos feito baratas tontas. É um fanfarrão. Louvado seja o Diabo. Humberto queria procurar-lo, pedir uma ajuda, propor um acordo, vender sua alma. Mas sua alma tem pouco valor. O diabo não se interessou.
Talvez Deus. Dizem que ele ajuda de graça.
Parafraseei o título de Gabriel Garcia Marquez para falar de minhas próprias experiências como cliente de garotas de programa. Sinto necessidade de falar sobre isso. Escrevo para meu próprio bem. Sinta-se à vontade para ler e comentar, se quiser. Não pretendo incentivar a prostituição. Só quero falar do que vivi. Todos os nomes citados são codinomes que atribuí para preservar a identidade das pessoas. Ou seja, não é o nome de guerra da garota.
Quem sou eu
- Ricardo
- Um homem que buscava sexo decompromissado com garotas de programa e acabou apaixonando-se por uma delas.
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