Humberto saiu com Elize uma vez, duas vezes, três, quatro, cinco vezes seguidas. Depois precisou viajar. Ficou fora uns 15 dias. Não seria mais o mesmo.
Ele a conheceu numa boate, numa das capitais do norte. Ela era garota de programa. Não é bem como Humberto gostaria de chama-la, mas assim fica entendido o que ela fazia para ganhar dinheiro. O que não se faz por dinheiro, afinal? Haveria alguma forma digna de ganhar dinheiro? Sempre o duvidei. Mas essa é a maldição de Humberto. Apaixonou-se por uma garota de programa.
Elise também foi amaldiçoada. Humberto é casado. Foi para o norte numa oportunidade de trabalho. O que não se faz por dinheiro? Nunca Humberto pensou em morar tão longe. Mas foi pelo dinheiro. Vale a pena se a grana não é pequena (perdão, Pessoa). Porém estava triste, longe de sua família. Não gostou da cidade. Sofreu um choque. Lugar outro, pessoas outras, falas diferentes, calor. Meu Deus, que calor! Humberto foi buscar o que conhecia como consolo. A companhia efêmera de uma puta.
Humberto sabia que bastava pagar para ter uns minutos de mulher, um bocadinho de uma fêmea. Sabia de longa data. Já havia contratado dezenas, talvez mais de uma centena de putas. Ele não sabia mas estava cansado. Cansado de alugar corpos e acessos a bucetas. Deitou-se com tantas mulheres, mas não tinha nenhuma delas.
Sair com uma puta é coisa fácil. Basta ter dinheiro e coragem. Conheci homens que tinham dinheiro mas não a coragem. Diziam querer experimentar, mas faltava a atitude. Qual era seu medo? As putas causam medo em alguns homens. Em outros causam fascinação. Humberto era do segundo tipo.
Quando começou a sair com garotas de programa sentia tremedeiras. É um cara tímido. Não se dá à chavecagem nas baladas. Não leva jeito para isso. Sempre foi direto. Deve ter algum grau de Asperger. Lembro de uma cena de A Beatiful Mind, em que John Nash (personagem de Russell Crowe), chega numa menina numa festa e vai direto ao assunto, sem rodeios, sem chavecos, sem cantadas. É como Humberto se sente. Chega numa prostituta e pergunta duas coisas apenas: o preço e a disponibilidade. Fechado.
Encantou-se com Elise. Não sabe dizer porquê. Sentiu que tirou a sorte grande. Tinha entrado na boate. Sozinho. Era como costumava sair para caçar. Fazia seu próprio caminho:
"Ando só
pois só eu sei
por onde ir
por onde andei".
Viu Elise sentada num canto. Morena linda. Tem um fraco, fraquíssimo, por morenas. Ensaiou, criou coragem. O dinheiro já estava no bolso. Mas é preciso coragem. Recuou. Voltou e ela não estava mais lá. Frustrou-se, mas no meio da frustração ela reaparece e senta no mesmo lugar:
Oi morena, você faz programa? Faço, respondeu docemente. Perguntou o preço e a disponibilidade. Duas perguntas apenas. Em menos de um minuto estavam saindo para o motel. Não se conheciam, mas no caminho sentiu que encontrava alguém diferente. Não estava enganado.
Antes de Elise, alguns anos antes, Humberto conhecera uma garota, Bia. Ela foi a primeira e até então a única com quem ele saiu por várias vezes e por quem começou a sentir um apego.
Bia era, tinha que ser, uma morena, cabelos longos, alta, magra, cheirosa, doce, meiga, linda. Trepava explendidamente. Chupava olhando nos olhos. Gostava do que fazia. Conhecia os clientes. Pedia chocolate. Era apaixonante. Bia desapareceu da casa onde trabalhava e ele perdeu o número dela. Perdeu não. Jogou fora numa de suas crises de arrependimento. Humberto se arrependeu muitas vezes de ter procurado prostitutas, até que o arrependimento se cansou e foi embora. Deixou-o com suas putas.
Arrependeu-se também de ter perdido o telefone da Bia, até que conheceu Elise.
Naquela noite Humberto havia saido com uma menina da avenida. Estava frustrado porque fora horrível. Sentiu que estava acompanhdo por uma boneca de borracha. Elise salvou a noite com sua doçura. Era uma pessoa de verdade. Era linda, atraente, pele macia como nunca havia sentido, cheirosa. E doce. Rosto de menina. Mestiça. Traços de índia.
Mas ele brochou. Não houve penetração. Contra sua vontade seu órgão recusava-se a entrar no corpo dela.
A psiquê humana é difícil de entender, mas tem sua lógica. Desde o primeiro encontro Humberto não queria enxergar Elise como garota de programa. Não conseguia consumar o ato pelo qual iria pagar. Seu corpo o impedia de fazer o que sua alma não queria. Não era a primeira vez que isso acontecia e não seria a última. Humberto era casado e tinha sexo normalmente com sua mulher, mas na rua não era raro brochar.
Mas com Elise o caso parecia mais grave. Não consegui manter uma ereção mínima para penetração. Sentia tesão por ela. Desejava-a, mas na hora seu corpo se recusava. Ele a satisfazia lambendo sua buceta cheirosa até que ela gozasse. Isto se repetiu por dias até o momento em que ele passou a percebe-la como sua amante, não mais como uma garota por quem estava pagando.
Humberto e Elise se envolveram emocionalmente. Encontravam-se com frequência desde o primeiro dia. As sequências de encontros só eram interrompidas quando Humberto viajava uns dias para o sul, para ver sua família.
O que sentia por Elise era um desejo de estar junto, um afeto, um carinho, mas também um desafio de conquistar seu coração maltratado. Depois de uns meses ela revelou-lhe parte de seu passado, uma parte dolorosa que ela não gostava de revelar a ninguém. Estava com um pouco de álcool na cabeça e a língua se soltou. A embriaguez lhe convenceu que Humberto era a pessoa certa a quem dizer sua dor. Ele se sentiu bem em ouvi-la. Sentiu-se íntimo. Também estava com excesso de álcool.
Ele nunca foi de beber. Começou a beber então, longe de casa e por causa de Elise. Nos primeiros meses ela lutava contra a idéia de se envolver com um cliente e não raro dava-lhe um belo cano. Deixava-o esperando. Não atendia o telefone. Arrependia-se de ter marcado encontros. Tinha medo. Ele era casado, afinal. Não tinha como ficar com ela. Como eu disse, é sua maldição.
Ele saía e enchia a cara. Estava apaixonado.
Quando ela sumia ele a ameaçava por mensagens de celular. Dizia que nunca mais a procurava. Ameaçava sair com outra garota. Isto mexia com ela.
Logo que se conheceram ele viajou. Na viagem saiu com uma prostituta. Normal para ele até então. Voltou e foi jantar com Elise. Ela perguntou e ele disse a verdade. Humberto não mentia. Ela chateou-se. Aquele dia foi um marco nessa conturbada relação. Ela não esperava ouvir que ele tinha saído com outra garota de programa. Conheciam-se a menos de um mês.
CONTINUA
* os nomes foram trocados para preservar a identidade dos personagens, mas a história é real.
Parafraseei o título de Gabriel Garcia Marquez para falar de minhas próprias experiências como cliente de garotas de programa. Sinto necessidade de falar sobre isso. Escrevo para meu próprio bem. Sinta-se à vontade para ler e comentar, se quiser. Não pretendo incentivar a prostituição. Só quero falar do que vivi. Todos os nomes citados são codinomes que atribuí para preservar a identidade das pessoas. Ou seja, não é o nome de guerra da garota.
Quem sou eu
- Ricardo
- Um homem que buscava sexo decompromissado com garotas de programa e acabou apaixonando-se por uma delas.
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