Depois de conhecer Elise, uns dois meses depois, Humberto faria aniversário. Chegaria aos seus trinta e poucos anos. Não imaginava o presente que ela preparava.
Na verdade não se pode dizer que Elise prepara alguma coisa. Tudo com ela funciona na espontaneidade. Tudo acontece no momento. Ela apenas planeja vagamente alguma coisa: sem data, sem hora, sem duração, sem recursos. Tem apenas uma vaga idéia do quê pretende fazer. Elise promete coisas para ontem. Na hora do jantar promete que vai almoçar no mesmo dia. Às 5 da manhã promete que vai passar a noite junto. Parece não ter noção do tempo ou do espaço. Aprendeu a viver por si só. Acho que é isso.
Mas no dia do aniversário de Humberto houve uma excessão. E uma excessão dessa deve ser notada porque foge em absoluto da regra de seu comportamento. Humberto aprendeu a não criar expectativas por ela. Aprendeu não. É impossível não criar expectativas, mas aprendeu que não deve esperar, porque ela sempre o surpreende.
Naquele dia ele procurou não esperar muito, pois já conhecia o gênio de Elise. Mas ela foi pontual ao encontro que marcaram. Estava linda. Preparou-se exclusivamente para ele e estava linda, deslumbrante, apaixonante. São esses momentos que destroem todas as chances e todas as idéias de um rompimento. Humberto não admite perder essa mulher impetuosa e imprevisível, que o encanta com seus atos inesperados. Ela o fere de morte num dia, e no outro o faz desfalecer de amor e prazer.
Elise pediu para levar a Sheila, sua amiga, para comemorarem todos juntos. Humberto gostava de Sheila e não fez objeção. Foram os três a um restaurante. Comeram e beberam vinho. Elise teve uma idéia. Queria levar Hmberto para a boate e contratar uma memina para fazer strip em sua mesa. Pretendia saber o quê sentiria vendo-o olhar para outra mulher. Idéias que o álcool ajuda a sairem da cabeça e irem para a língua, e daí para o ouvido de outra pessoa.
Humberto gostou da idéia. Agradava-lhe provocar ciúmes em Elise. Sentia-se mais amado por ela. Foram à boate. Beberam mais um pouco e Elise escolheu a dançarina. Ele não se empolgou com a escolhida e ela não teve ciúmes. Pediu para escolher outra. Escolheu uma menina pequena que estava por alí, de saia curta, mostrando as polpas de sua bunda. Era loira, uma loirinha espevitada. Não é seu tipo preferido, mas parecia safada. Sheila o confirmou: "essa é piriguete".
A safadeza é um atributo que sempre atraiu Humberto para a cama com uma prostituta. Mas Elise não é do tipo safada. Elise é meiga, reservada, misteriosa. Por isso se apaixonou por ela. As safadas devem estar circunscritas à carne, para satisfazer o esporro, para gozar na cara, mas não para o coração.
A loirinha veio e começou a despir-se. Elise levantou-se e saiu de perto. Foi tomar tequila. Estava tomada de ciúme. A loira arreganhava sua buceta na frente de Humberto. Fazia gestos, cara e bocas. Era safada mesmo. Do tipo que o homem quer pegar, comer e arrotar. É para traçar e desossar, mas não inspira uma paixão avassaladora. Não desperta o amor. Não marca o coração. Não finca a seta de Cupido. Não estoca o punhal da paixão. Não arrebata.
Elise voltou enciumada e transtornada. Humberto a abraçou e a beijou, declarou-lhe seu amor com a cabeça cheia de álcool e os olhos cheios da visão de outras mulheres. Estava cansado de putas e de bucetas e corpos nús e de putarias. Queria apenas o cheiro e a pele macia e morena de Elise. Queria apenas seus lábios carnudos e macios, que o faziam desfalecer de amor com um beijo.
_ Porque você ficou com ciúme dessa e daquela morena não?
_ Porque a outra fui eu quem escolhi e essa foi você quem escolheu.
Depois disso Elise ainda pediu que Sheila fizesse também um strip para Humberto. Incomodava-a o fato de ter contratado a dinheiro duas meninas enquanto sua amiga estava ali sem ganhar nada. Foi apenas para poder ter uma oportunidade de dar-lhe uns trocos. Pediu a Humberto que desse um tapa na bunda de Sheila. Não via problema. "Ela é nossa amiga", dizia.
Humberto recusou-se. Não gosta de cruzar certos limites.
Sheila é morena com aplique de cabelos loiros. Baixa, dona de um corpão farto, bunda grande e seios siliconados. Agrada a muitos homens mas não faz o tipo de Humberto. E mesmo que fizesse não haveria a mínima chance de despertar nele qualquer interesse. Era sagrado respeitar a amiga de sua amada. Nem por vingança teria coragem de se aproximar de Sheila. A própria Sheila também sempre demonstrou grande respeito pela relação dos dois. É um código de honra inquebrável.
Mas a noite ainda não terminara. O casal foi para o apartamento de Humberto, lugar comum para os dois, onde já haviam vivido momentos diversos. Ali já tinham transado, visto TV juntos, comido, trocado carícias. Também já haviam discutido ali algumas vezes. Boa parte de seu amor foi forjado ali naquele apartamento de poucos móveis.
Certa noite, naquele quarto, Humberto precisou atender o telefone. Era sua esposa. Se não a atendesse poderia levantar suspeitas. Elise enciumou-se e acendeu-se nela a idéia de que Humberto a deixaria. Emburrou-se e o maltratou. As nuvens negras pairavam sobre eles. Ele, irritado com a situação, respondeu que talvez fosse melhor terminar tudo.
_ É isso que você quer não é Humberto?
_ Não! É você quem quer. Assuma que quer terminar Elise.
_ Então tá. Foi bom te conhecer. Obrigada por tudo. Não vou mais ter procurar.
Elise dizia com uma facilidade que faria acreditar que ela não sofreria com uma separação, mas era fachada. Era de raiva que falava assim. Não queria perde-lo, mas a força da circunstância a fazia acreditar que Humberto a deixaria quando sua família viesse morar com ele.
_ Não! Não vou te deixar Elise. Eu te amo. Não quero te deixar.
Mas Elise havia guardado as palavras que Humberto dissera poucas horas antes da discussão: "Não é sempre que cumpro minha palavra". Elise apenas não sabia o motivo porque ele dizia isso.
Mas voltemos à noite do aniversário.
Quando chegaram ao apartamento Elise começou a falar de si. Falou e desceu às profundezas de seus sentimentos. Falou de seu passado e do abuso que sofrera do padastro quando criança. Falou do rancor pela inércia de sua mãe, que não protegeu a filha do criminoso. Hoje o traste é morto. Humberto gostaria de mata-lo novamente.
Depois se abraçaram, ficaram calados por um tempo ouvindo a respiração um do outro. Depois de aliviada Elise quis "fazer amor", como ela diz. Foi uma noite que não se deixará jamais ser esquecida. Como um homem pode esquecer-se do que fez com uma mulher como o que fizeram naquela noite? Como um homem pode simplesmente admitir que essa relação deve acabar? Como ignorar a profundidade e a força dos acontecimentos?
Humberto não é homem que se esquece. É um homem calado, de poucas falas, mas de coração profundo. Suas vivências amorosas estão todas ali, latentes, inesquecíveis. Jamais esqueceu qualquer das mulheres que amou em sua vida. Foram poucas, mas foram a fundo, até o osso da alma.
Depois, no meio da noite, Elise acorda perguntando:
_ O que eu te disse da minha vida?
_ Muitas coisas.
_ Não. Eu não falei nada. Nunca falo pra ninguém. Eu nunca falei pra ninguém.
_ Pra mim você falou.
_ Não falei. Eu não falo pra ninguém.
_ Falou amor. Você confia em mim. Eu te amo.
Na manhã seguinte Humberto precisava trabalhar. Fora uma das melhores noites de sua vida.
Parafraseei o título de Gabriel Garcia Marquez para falar de minhas próprias experiências como cliente de garotas de programa. Sinto necessidade de falar sobre isso. Escrevo para meu próprio bem. Sinta-se à vontade para ler e comentar, se quiser. Não pretendo incentivar a prostituição. Só quero falar do que vivi. Todos os nomes citados são codinomes que atribuí para preservar a identidade das pessoas. Ou seja, não é o nome de guerra da garota.
Quem sou eu
- Ricardo
- Um homem que buscava sexo decompromissado com garotas de programa e acabou apaixonando-se por uma delas.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Parte 5 - Presente de aniversário
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